Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

Can Be

Publicado em 08/04/2021

'Round Midnight

— When you have to explore every night…

'Round Midnight

— …even the most beautiful things that you can find can be the most painful.

'Round Midnight

— You understand what I’m saying?

‘Round Midnight de Bertrand Tavernier.

Hobson Meets Kassem

Hobson Meets Kassem: The Story of Classic Records

Publicado em 03/04/2021

Gostei imenso de assistir esta conversa entre Michael Hobson (Classic Records) e Chad Kassem (Acoustics Sounds). Por falar em boas companhias… esta forma de fazer as coisas praticamente só existe nos Estados Unidos, esta realimentação positiva mútua. É uma mentalidade de trabalho, de obsessão, de qualidade, de paixão (pela música), de humildade (em oposição a uma arrogância dos americanos colectivamente), de conhecimento, de vontade em saber mais, de vontade de partilhar e também aprender com os outros, de amizade, de gratidão, de arriscar e, no fim, contar com o melhor. É extraordinário o que conseguiram, numa época em que o vinil estava virtualmente morto.
É incrível ouvir Hobson mencionar o orgulho que é estar ali ao lado daquele homem, que conseguiu fazer discos num patamar que ele só almejou e que hoje edita os “melhores do universo” (admito aqui a imodéstia, mas está a falar dos discos da Analogue Productions, que estão certamente no topo, entre os melhores dos melhores). Kassem responde que aprendeu muito com ele. Mas verdade é que aprenderam um com o outro e com muitos outros, só assim é possível.
Ambos fabricavam os discos na RTI que é de onde vêm alguns dos melhores discos que tenho, como por exemplo os recentes Chet Baker editados pela Craft Records, mas quando as grandes editoras descobriram que o vinil afinal estava vivo, Hobson teve de arranjar uma alternativa e acabou por comprar uma fábrica de vinil que transportou para a California. Mais tarde vendeu-a a Chad Kassem que a transformou na Quality Record Pressings, onde os discos são prensados à mão (um a um) e de onde saem alguns das melhores edições que é possível pôr a tocar. Outra diferença que se pode observar relativamente aos negócios nos EUA, é a honestidade e transparência — apesar de ser um processo razoavelmente complexo, os preços estão à vista para quem quiser ver quanto custa editar um disco de qualidade. Noutros lados, para coisas bem mais simples, só para um orçamento é preciso um requerimento em papel azul de 25 linhas e mesmo assim não há garantias.
A certa altura diz-se que ouvir música em vinil requer uma devoção e uma atenção que o digital dispensa e compara-se de forma que eu próprio já comparei: É como ver um filme e é assim que agora ouço música.
Esta conversa é de grande interesse para quem gosta de música em vinil e de histórias contadas por quem as viveu.

Mataram a Cotovia

Mataram a Cotovia

Publicado em 01/04/2021

Harper Lee

Fotografia da primeira edição de To Kill a Mockinbird.

Harper Lee (1926-2016) escreveu um único livro, descontando aquele que terá sido meramente uma primeira versão de To Kill a Mockingbird, publicado já perto da sua morte e em circunstâncias no mínimo suspeitas.
Escreveu um único livro — juntando-se a J.D. Salinger, Emily Brontë, Margaret Mitchell, Sylvia Plath, Boris Pasternak ou Arundhati Roy — e o resto é história, ganhou o Pulitzer, tornou-se um clássico da literatura americana e apenas passados dois anos da primeira edição, foi realizado um filme com Gregory Peck de quem se tornou próxima. Peck ganhou um Oscar pela sua maravilhosa interpretação de Atticus Finch e um dos seus netos chama-se Harper Peck Voll.
A narradora é Scout, filha de Atticus, que em 1935, com o seu irmão mais velho e o amigo Dill atravessam uma fase da infância marcada por acontecimentos traumáticos na sua cidade e na própria família, o pai foi incumbido de defender um negro acusado de violação de uma branca. A autora consegue dar uma extraordinária e pungente credibilidade à narração de uma realidade complexa vista pelos olhos de uma criança de oito anos.
Harper Lee foi amiga de Truman Capote, sendo Dill Harris baseado no escritor. A conclusão lógica é que Scout é ela própria, pois Truman, tal como Dill, passava as férias de Verão com Nelle (Harper Lee). Com a dúvida que assalta qualquer jovem autor, Capote tornou-se crucial na inspiração e incentivo para que este livro existisse, tendo eventualmente até ajudado a escrever os primeiros capítulos — acredito-me profundamente na influência das boas companhias (e na perfídia das más). Acabaram por se afastar, quando o estilo recluso de Harper Lee se tornou incompatível com a extravagante vida social de Capote que se seguiu ao seu sucesso literário.
Se mais provas fossem necessárias sobre a estupidez dos ventos de modernidade que sopram da América e que indivíduos de índole duvidosa tentam importar para cá, To Kill a Mockingbird faz parte da crescente lista de títulos banidos devido a múltiplas queixas por parte de gente cuja ignorância é verdadeiramente torrencial. Mas os Estados Unidos sempre foram assim, tanto nos dão um livro destes, como as razões porque foi escrito, que continuam bem presentes com outras cores e inversão de papéis.