Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

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O Milagre

Publicado em 12/03/2021

H osana nas alturas, o Spotify anuncia “qualidade de CD” para o seu serviço! Tendo em conta que esse formato nasceu há 41 anos, trata-se de um verdadeiro milagre, devidamente assinalado pelas revistas Hi-Fi de “referência”. E tem tempo, visitando o site em português ainda não há nada.

É verdade que serviços com o Tidal, já oferecem isso e melhor (nesse caso a custar 13,99€ por mês), mas tenho sérias dúvidas que seja caso para despachar ou encostar uma colecção de CDs. No site clicando em “Sound Quality”, temos em vez disso, marketing puro e simples. Descendo bastante, ficamos a saber que a qualidade Hi-Fi é 16bits/44,1KHz, a do tal CD. A qualidade “Master” é MQA 24bits/96KHz (aparentemente com um máximo de 24bits/192kHz) — e é isto, na prática, a tão falada alta-resolução. MQA é uma discussão em si própria, para outras instâncias. No total têm 70 milhões de músicas e para sabermos quantas em Master, temos de consultar as perguntas mais frequentes.

A Realidade

How much music is available in Master quality?
We have millions of tracks across all genres, both from TIDAL’s artist owners and the music labels. We continue to add more Masters content weekly.

Tradução de conversa vazia para português: não muita.

Por um lado, quanta música se ouve num dia? E numa vida? Por outro lado, parece-me evidente que a esmagadora maioria da música que cada um quer ouvir não está nesses formatos chamados “alta resolução”. Fui à lista New Arrivals e interessaram-me dois, Ólafur Arnalds e Taylor Swift (eu sei, é estranho). Não conheço a maior parte e se calhar até gosto, soa bem e tudo mais, mas teria de me adaptar — o que já faço em parte no vinil, mas por uma razão que ficará para desenvolvimento posterior e que é a extraordinária qualidade de algumas edições.

Um DAC de referência e estou a utilizar esta palavra como sinónimo de extrema qualidade e preço (sempre muito para cima de 20.000,00€, o dobro e mais) anuncia uma qualidade máxima de 32bit/768KHz. Para tocar o quê? Ficheiros de demonstração e muito pouco mais. Num site como o HD Tracks conseguem-se alguns álbuns de 24bits/352,8KHz por $44,00USD ou DSD256 ainda mais caros. Esta malta da música é como o George Lucas, se podem vender a mesma coisa uma dúzia de vezes, não a vão vender só uma. Portanto, primeiro foram despachados muitos vinis porque vinha aí o milagre do CD que o Spotify ainda anda por aí a anunciar; depois foram despachados muitos CDs substituídos no máximo por “qualidade iTunes” (AAC 320Kb, sou um optimista). Quem quiser qualidade marginalmente melhor que o CD, paga outra vez. Quem quiser qualidade realmente melhor que o CD, paga muito mais. E em qualidade DSD256 ainda paga mais um bocadinho. Mas a realidade é que a música digital de “alta resolução” se fosse imagem seria o equivalente a 1080p e o paralelismo nem é mau — não ando propriamente a ver muitos filmes nos gloriosos 4K (zero) — o melhor é comprar já uma televisão de 8K. A verdade é que o CD, que neste caso seria uma pobre imagem 720p, num leitor actual consegue debitar uma qualidade a todos os títulos surpreendente. Só um crente em milagres é que paga para os substituir por mais do mesmo, ou menos.

A Minha Realidade

Quanto mais tempo passa, menos tempo tenho. Esta evidência evade a esmagadora maioria das pessoas e o que quero dizer é o seguinte: Para que são 70 milhões de músicas, se nem as 70.000 (para facilidade de linguagem) que já tenho neste momento irei ouvir até ao fim da vida?

A colecção tem 1.100-1.200 CDs e o espaço correspondente. Desses, pelo menos 50% já não me interessam para nada, cumpriram uma função há anos. Quando compro um, tento retirar outro, que habitualmente dou a alguém. Não quero ocupar mais espaço com CDs.

Na minha opinião, em qualidade absoluta primeiro vem o DSD (o formato do SACD), depois o vinil e depois o CD. Mas o que mais gosto é do vinil. Gosto do ritual, gosto do som e gosto de parar para ouvir música e é assim que ouço, parado. E há virtualmente tudo em vinil, o que não há complemento quase sempre em CD. Consigo felizmente comprar praticamente tudo o que quero, o que corresponde de certa forma ao que consigo ouvir realisticamente. O streaming não me cabe na cabeça. O grande argumento é “milhões de músicas!”, para um pobre homem só com dois ouvidos e apenas 24 horas por dia. E o outro é a “conveniência!”. Só se for a conveniência de “tocar” música ambiente nos elevadores e nos centros comerciais. A conveniência de ouvir música a metro ou como ruído de fundo. Uma terceira tentativa pode ser “a qualidade extraordinária!”. Duvido muito, talvez nos poucos ficheiros DSD que justifiquem a existência dos tais DACs extremamente caros que acabam por funcionar como leitores de CD glorificados. Dou facilmente 50,00€ por um vinil, nunca daria isso pelo mesmo álbum em DSD256 ou, pior ainda, por quatro meses de Tidal.

Vitsoe 606

Parte da colecção de CDs.

Eu sei que teoricamente o vinil não chega ao CD e na minha opinião é literalmente na teoria — no papel. Na prática, suplanta-o de longe e é o que me soa melhor. A minha tese é que ainda ninguém faz a mínima ideia de como se ouve e pior, como cada um ouve e o que cada um realmente ouve. Eu acho que maior gama dinâmica do CD chega a uma série de frequências que em conjunto são incomodativas para o ouvido médio. O vinil não chega lá e é isso que cria descrições como “orgânico” ou “som quente”, em suma “mais humano”, ou pelo menos mais adaptado ao humano, porque como é sabido o que nos chega aos ouvidos é sempre analógico — daí a existência do DAC. Como se não bastasse, os vinis estão cada vez melhor (nem todos!) e o CD atravessou uma fase — a loudness war (Wikipedia) — que em parte ainda dura, que os tornou cada vez mais intragáveis. A tal gama dinâmica superior, serviu de muito.
Vou dar alguma razão à conveniência. O vinil ocupa imenso espaço. Afinal não vou. Imaginem que depois desta estopada Covid-19 vem o apocalipse zombie — e como sabem, já faltou mais. Eu o antigo, vou continuar a ouvir música. Tu o moderno do streaming vais ter de aprender a tocar ukulele.

A Excepção

Não há boa regra, especialmente em Portugal, que não tenha a sua excepção. É maravilhoso e ao mesmo tempo cruel haver tanta boa música à disposição, mesmo muita. E música assim-assim há muita mais, já para não falar da quantidade gargantuana de música merdosa. Durante largos anos, julgo que até hoje, perdeu-se a noção de álbum, lá está, com os rumores francamente exagerados da morte do vinil. Nesse sentido, há muitos “álbuns” de hoje que resolvo com uma música, duas, no máximo. E é nesses casos que realmente considero que não faz sentido comprar um CD e muito menos um vinil. Com um ou dois ficheiros digitais a preço aceitável, resolvo o problema — o único senão é que a esmagadora maioria da música disponível está num formato pior que o CD — AAC 320Kb da Apple ou uma versão de MP3 igualmente com 320Kb (repare-se nos downloads incluídos na compra de muitos vinis).

Eu percebo que no fim do dia, esta é uma escolha meramente pessoal de acordo com os gostos e possibilidades de cada um e que valerá muito pouco a pena discutir. Só não deitem já fora os CDs. Se os ouvirem numa boa aparelhagem, vão reparar que é uma colecção praticamente nova. Já me aconteceu isso, não uma vez, mas várias. E melhora sempre.

Oyaide Tunami GPX-Re

Publicado em 07/03/2021

Na alta fidelidade… vou dizer high end, nada me intriga mais que os cabos de corrente. Não consigo entender como a partir do momento que as necessidades de potência são satisfeitas, pode fazer a mínima diferença aquele último metro e meio — há quem diga que é o primeiro, do ponto de vista do componente —, depois de quilómetros de cabos para fazer chegar a electricidade a nossa casa, ou centenas de metros de fio de cobre nas nossas próprias instalações eléctricas. E não vejo explicações em parte nenhuma. A juntar a isso, há a utilização de power plants ou as fontes de alimentação super-elaboradas dos equipamentos propriamente ditos, que teoricamente deveriam tratar de qualquer problema com a corrente. Mas não, parece que o cabo é super-importante e eu próprio já ouvi diferenças de assinatura sonora que não entendo.

Liguei o cabo Oyaide Tunami GPX-Re à fonte de alimentação da parte analógica do meu pré-amplificador T+A P 3000 HV (sim, utiliza dois cabos) e a única coisa que posso comentar é que pior não toca do que com um cabo T+A com fichas Oyaide P-037e/C-037. (Convém também salientar que a corrente não vem da parede mas sim de um Torus Power RM 16 CE.) Mas toca melhor? Francamente, não noto. Os discos que utilizei foram os seguintes (desisti cedo do Jackie McLean e ouvi só os três restantes):

  • Cassandra Wilson, Glamoured, Blue Note ‎B0029414-01
  • Jackie McLean, It’s Time!, Blue Note ‎B0031655-01
  • Trentemøller, The Last Resort, Poker Flat Recordings ‎PFRLP18
  • Dead Can Dance, Spiritchaser, Mobile Fidelity Sound Lab ‎MOFI 2-002

Lembrei-me de ligar o cabo ao pré-amplificador phono (Clearaudio Balance +), desta vez a substituir um cabo preto vulgar de origem. Aqui sim, há diferenças audíveis, ao nível daquelas melhorias incrementais que podem no fim constituir um grande sistema, dentro da filosofia de tudo conta. Por fim, resolvi voltar a ligar o Tunami GPX-Re ao T+A e ligar o cabo T+A/Oyaide ao Clearaudio e foi a melhor combinação. Principalmente a Cassandra Wilson, mais presença e solidez, mas definição e mais detalhe. O palco acompanhou as mudanças mantendo-se sempre inalterado, não é uma coisa má porque já é um palco de alto nível, mas o facto é que este cabo não o melhora.
O problema destes testes é que eu tenho fraca disciplina. Facilmente me maravilho com o que estou a ouvir e ando por todo lado — e agora este disco, agora aquele disco e lá se vai o teste. E foi o que aconteceu.

Passado um dia ou dois…

Comprei um cabo Oyaide Tunami com fichas C-079/P-079e (podia ser o cabo do título, mas este conjunto fica por melhor preço e já estava a gostar das fichas da gama abaixo P-037e/C-037) e trouxe emprestado um Tellurium Q Silver (como habitualmente Ultimate Audio) que utiliza fichas Furutech.
Ligado o primeiro ao pré-amplificador, algo melhora e seguidamente o Tellurium Q Silver não apresenta diferenças significativas. A mesma ordem no pré-amplificador phono, gostei do Oyaide, do Tellurium Q Silver nem por isso. A música perdeu força no disco Spiritchaser, o que para não variar me espantou. Primeiro porque será cabo para custar o triplo, segundo, porque não entendo estas diferenças numa secção do sistema onde nem sequer existe som a passar. Depois de trocar várias vezes, não tive dúvidas, a música retrai-se, de tal forma que fui buscar o meu multímetro (toda a gente tem um!) para verificar se a voltagem correcta estava a passar. Estava. Não percebo.
Para não variar indisciplinei-me e para a confusão, noutros discos as diferenças não são assim. Tocam igual ou com algum refinamento maior relativamente ao Oyaide. De uma forma ou de outra, de forma nenhuma a justificar a diferença de preço.
Por fim, descobri que estes cabos apesar de substanciais encaixam no gira-discos Technics SL-1200GR e experimentei o Oyaide Tunami GPX-Re, não registo diferenças relativamente ao cabo de origem. Mesmo assim devo ligar um cabo Oyaide Tunami com fichas C-079/P-079e para ficar tudo igual e seguindo a filosofia que mencionei anteriormente: Tudo conta.

Conclusão…

O cabo T+A com fichas Oyaide P-037e/C-037 já está num nível muito apreciável para mim. O Oyaide Tunami com fichas C-079/P-079e ainda melhora bastante principalmente ligado ao pré-amplificador phono Clearaudio. O Tellurium Q Silver, meh. Lendo as críticas (Hi-Fi+), é uma coisa de mudar a vida de uma pessoa, mas a minha não mudou, foi uma desilusão — e estou a planear as interligações todas com cabos Tellurium Q, terei de ouvir antes — “a ver” se não me engano muito. Eu sei que tenho um bom sistema neste momento, muito bom dirão alguns, com fortes possibilidades de se tornar excelente em breve. Já aprendi há muitos anos que o óptimo é inimigo disso tudo. Para cabos de corrente, parece-me que estou servido.

Pro-ject VC-S2 Alu

Publicado em 10/01/2021

Não há nada que me dê gosto ter nesta máquina de limpar vinil. Em bom rigor, não é coisa para se ter à vista se existir o mínimo gosto estético. Como design é um caixote enorme, sem qualquer explicação para o seu tamanho que não seja um depósito que é tão grande que dispensa ser esvaziado, a menos que se limpem centenas e centenas de discos seguidos. Não é de alumínio, mas sim folheada a alumínio (daí o nome), as peças de metal de má qualidade e as de plástico como a escova, nem se fala. Moldes fracos, plástico fraco. Os interruptores, nem se entendem de tão grandes, abrutalhados e má qualidade. Custa cerca de 500,00€ o que notoriamente não vale, mas é um fenómeno transversal em praticamente tudo o que é Hi-Fi. Querendo uma de maior qualidade como a Clearaudio Smart Matrix Silent, paga-se três vezes mais, o que, como facilmente se adivinha, também não vale. E já que mencionei a palavra “silent”, silenciosa é que esta máquina não é. A função de aspiração faz lembrar o antigo aspirador Hoover “bate escova aspira”, é incompreensível. Um Dyson é que não é. A máquina é tão fraca que não se vê o logotipo Pro-ject em lado nenhum, uma má coincidência, certamente. A única indicação que não é um aparelho de marca branca vindo directamente da China, é uma etiqueta por baixo — sem desprimor, porque há na China material muito melhor que este, a todos os níveis. E mesmo assim, a versão menor, a VC-E, ganhou um prémio EISA 2020-2021. Se calhar o defeito é meu, o melhor é cada um ver por si.

Dito isto, esta máquina tem um predicado inegável: funciona surpreendentemente bem. Ainda só utilizei o líquido Pro-ject Wash It e os discos ficam bem limpos, sem pó, sem bolor, sem marcas, tocam melhor e mais silenciosamente. Consequentemente, uma má prensagem, toca pior como se os pops e plops ficassem com mais fidelidade. O efeito anti-estático da lavagem é duradouro, tenho discos lavados há mais de três meses que não apresentam qualquer sinal de estática. Agora todos os discos novos passam pela máquina antes de tocar a primeira vez e os antigos, vou lavando. Há apenas um defeito que é um resíduo branco que fica depositado na agulha na primeira passagem. Tudo somado, apesar de não ser um objecto que me encante, tem funcionado, cumpre a função, suponho que seja suficiente.

Actualização: O resíduo deixou de existir com o líquido Wash It comprado posteriormente. Esse efeito aconteceu com o que acompanhava a máquina.

Hana MH

Publicado em 27/11/2020

Hana MH

Outra célula extraordinária. Acabei por optar por esta, que é virtualmente idêntica à Hana ML. São as duas moving coil, mas a ML é de baixo ganho (L=Low) e a MH de alto ganho (H=High). A primeira não resultou para mim porque a amplificação cinco vezes maior (0,4mV base e 2mV base, respectivamente) exigida ao pré-amplificador phono, além de proporcionar um nível de detalhe que dizem ser de outro mundo, levanta toda a casta de ruído que no caso, acabou nos meus ouvidos.
Eu ouvi as duas, no meu ambiente (graças à simpatia habitual da Ultimate Audio), não são células modestas e muito menos tímidas, fazem as colunas tocar a sério. O silêncio da Hana MH é absoluto e isso para mim conta. Também demonstrou graves mais adequados à minha sala, em músicas muito específicas que escolhi para testar esse efeito — para mim é uma qualidade, mas poderá ser um defeito noutra combinação, no sentido que de facto a Hana ML consegue minar mais som do mesmo disco. Não sei. Ambas são mais um salto inacreditável na qualidade sonora que vou construindo (aqui relativamente à Hana EH), não sei quantas vezes mais irei ouvir os mesmos discos pela primeira vez, é assombroso. Toda a gente que escreve sobre estes assuntos considera habitualmente as células de baixo ganho como mais musicais, mais transparentes, mais detalhadas, numa palavra — melhores —, e sobre este par, mantêm o mesmo registo. E eu digo: Talvez.