Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

Artigos da categoria “Livros

É Apenas

Publicado em 11/04/2021

Há uma diferença essencial entre o fim do amor e o fim da amizade. Nas relações amorosas podemos sempre alegar que o suposto “amor” foi um equívoco. Mas é muito mais difícil sermos amigos de alguém durante anos e um dia concluirmos que aquilo nunca foi uma amizade.
No amor, o erro sobre o objecto é um alibi para o desgosto. Na amizade, o erro sobre o objecto é apenas desgostante.

—Pedro Mexia, Estado Civil, Tinta da China, 2009

Mataram a Cotovia

Publicado em 01/04/2021

Harper Lee

Fotografia da primeira edição de To Kill a Mockinbird.

Harper Lee (1926-2016) escreveu um único livro, descontando aquele que terá sido meramente uma primeira versão de To Kill a Mockingbird, publicado já perto da sua morte e em circunstâncias no mínimo suspeitas.
Escreveu um único livro — juntando-se a J.D. Salinger, Emily Brontë, Margaret Mitchell, Sylvia Plath, Boris Pasternak ou Arundhati Roy — e o resto é história, ganhou o Pulitzer, tornou-se um clássico da literatura americana e apenas passados dois anos da primeira edição, foi realizado um filme com Gregory Peck de quem se tornou próxima. Peck ganhou um Oscar pela sua maravilhosa interpretação de Atticus Finch e um dos seus netos chama-se Harper Peck Voll.
A narradora é Scout, filha de Atticus, que em 1935, com o seu irmão mais velho e o amigo Dill atravessam uma fase da infância marcada por acontecimentos traumáticos na sua cidade e na própria família, o pai foi incumbido de defender um negro acusado de violação de uma branca. A autora consegue dar uma extraordinária e pungente credibilidade à narração de uma realidade complexa vista pelos olhos de uma criança de oito anos.
Harper Lee foi amiga de Truman Capote, sendo Dill Harris baseado no escritor. A conclusão lógica é que Scout é ela própria, pois Truman, tal como Dill, passava as férias de Verão com Nelle (Harper Lee). Com a dúvida que assalta qualquer jovem autor, Capote tornou-se crucial na inspiração e incentivo para que este livro existisse, tendo eventualmente até ajudado a escrever os primeiros capítulos — acredito-me profundamente na influência das boas companhias (e na perfídia das más). Acabaram por se afastar, quando o estilo recluso de Harper Lee se tornou incompatível com a extravagante vida social de Capote que se seguiu ao seu sucesso literário.
Se mais provas fossem necessárias sobre a estupidez dos ventos de modernidade que sopram da América e que indivíduos de índole duvidosa tentam importar para cá, To Kill a Mockingbird faz parte da crescente lista de títulos banidos devido a múltiplas queixas por parte de gente cuja ignorância é verdadeiramente torrencial. Mas os Estados Unidos sempre foram assim, tanto nos dão um livro destes, como as razões porque foi escrito, que continuam bem presentes com outras cores e inversão de papéis.

Sabermos

Publicado em 24/03/2021

— (…) filho, eu disse-te que se tu não tivesses perdido a cabeça, eu ter-te-ia-mandado ler para ela na mesma. Queria que visses qualquer coisa nela… queria que visses o que é a verdadeira coragem, em vez que pensares que coragem é um homem com uma arma nas mãos. Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim. Raramente se ganha, mas às vezes conseguimos.

—Harper Lee, Mataram a Cotovia, Relógio D’Água, 2016

Sim, Calças

Publicado em 19/03/2021

— Mr. Radley disparou contra um negro na horta.
— Ah. E acertou-lhe?
— Não — disse Miss Stephanie. — Disparou para o ar. Acho que ele ficou branco como a cal. Por isso, se alguém vir um negro branco, é ele. E diz que tem o outro cartucho à espera de ouvir o próximo barulho que venha daquele quintal, e que da próxima vez não vai disparar para o ar, seja cão, seja negro, ou… Jem Finch!
— ‘Senhora? — perguntou o Jem.
O Atticus pronunciou-se: — Onde é que estão as tuas calças, filho?
— Calças, pai?
— Sim, calças.

—Harper Lee, Mataram a Cotovia, Relógio D’Água, 2016

A Luz de Pequim

Publicado em 06/03/2021

Gosto de ler o que Francisco José Viegas publica no seu blogue em grandes grupos de pequenos textos, julgo que a esmagadora maioria antes vistos em jornais. Este livro… nem por isso. Cai no imenso grupo do “há tanto para ler, porque haveria de ler isto?”. A omnipresente embirração com os lugares onde não se pode fumar, ou com tudo o que é vegan ou biológico — a ditadura contra os pequenos prazeres pessoais —, já tinha entendido, não precisava de mais um livro para isso. Mas onde me perdi em definitivo foi no desenrolar torrencial de sítios, ruas e lugares… é algo incessante durante todo o livro. A partir da página 138 comecei a tomar nota e não se consegue ler uma página inteira seguida, é inacreditável. Francisco José Viegas garante-nos que é um homem do Mundo. Direi mesmo mais, é um homem aqui do norte e arredores, mais ou menos. Portanto, a partir da página 138:
Guiné, Porto, Madrid, Minho, África, Peniche, União Soviética, Checoslováquia, Roménia, China, Bulgária, Mar Negro, Aveiro, Leça, Alemanha, Braga, Barcelos, Campanhã, Rússia, Hungria, Praga, Estalinegrado, Cáucaso, URSS, Moscovo, Astrakhan, Avenida dos Aliados, Estação de S. Bento, Estação Finlândia, Petrogrado, Viena, Brasil, Rio, S. Paulo, Bairro da Sé, Santos, Gaia, Guimarães, Gondomar, Brasília, Portugal, S. Paulo, Matosinhos, Macau, Vieira do Minho, Hong Kong, Coimbra, Figueira da Foz, Bissau, Pedrógão Grande, Massarelos, Mongólia, Pequim, Cidade Proibida, Gaubeidian, Rua da Restauração, S. Lázaro, Praga, Machu Picchu, Cordilheira dos Andes, Egito (o sítio de onde vêm os egípcios, com p), Cantareira, Afurada, Douro, Rua das Flores, Rua de Belomonte, Rua do Almada, Rua de São João, Rua dos Clérigos, Vale de Cambra, Praça da Liberdade, Rua de 31 de Janeiro, Rua de Santo António, Batalha, Afurada, Serra do Pilar, Sé, (Rio) Yang-Tsé, Rua de Santa Catarina, Praça da Batalha, S. Lázaro, Rua de Entreparedes, Aliados, Rua Formosa, Rua de Sá da Bandeira, Rua do Bonjardim, Rua de Santo Ildefonso, Igreja de S. Francisco, Foz, Dublin, Irlanda, Passeio Alegre, Castelo do Queijo, Rua de Fernandes Tomás, Rua Barão de Nova Sintra, Moncorvo, Carrazeda (de Ansiães), Vila Flor, Boavista, Golfo (Pérsico), Beijing… e continua, e repete, repete… Parei depois de 50 ou 60 páginas, senão não conseguiria acabar de ler.
Na página 256 há um sensacional catálogo de 27 lugares a contar com a nota de rodapé (Casablanca), nunca li nada igual. E pelo meio há outros catálogos, de restaurantes ou maços de tabaco antigos. E pode ser que me engane, mas parece que também não teve grande editor… a certa altura fala de 32.000 contos em Leninegrado — tinha de ser algures! — e passado uma linha, ou duas, são apenas 22.000 contos; quase no fim fala de uma mulher pendurada numa árvore e num homem pendurado na Ponte de D. Luís, mas pareceu-me ao contrário, ou fui eu que cheguei ali sem perceber nada. Uma leitura mais atenta seria bem capaz de revelar mais alguma coisa. É relativamente recente para mim e raramente aconteceu, mas estou na fase de deixar livros a meio se não gosto, não compreendo como cheguei ao fim deste. Até no título tem a menção de uma cidade, até os personagens Freixo e Aleixo remetem para lugares… é fastidioso.
Tem algumas boas passagens, principalmente para o final, e é tudo. E não é muito.