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Artigos da categoria “Música

Hobson Meets Kassem: The Story of Classic Records

Publicado em 03/04/2021

Gostei imenso de assistir esta conversa entre Michael Hobson (Classic Records) e Chad Kassem (Acoustics Sounds). Por falar em boas companhias… esta forma de fazer as coisas praticamente só existe nos Estados Unidos, esta realimentação positiva mútua. É uma mentalidade de trabalho, de obsessão, de qualidade, de paixão (pela música), de humildade (em oposição a uma arrogância dos americanos colectivamente), de conhecimento, de vontade em saber mais, de vontade de partilhar e também aprender com os outros, de amizade, de gratidão, de arriscar e, no fim, contar com o melhor. É extraordinário o que conseguiram, numa época em que o vinil estava virtualmente morto.
É incrível ouvir Hobson mencionar o orgulho que é estar ali ao lado daquele homem, que conseguiu fazer discos num patamar que ele só almejou e que hoje edita os “melhores do universo” (admito aqui a imodéstia, mas está a falar dos discos da Analogue Productions, que estão certamente no topo, entre os melhores dos melhores). Kassem responde que aprendeu muito com ele. Mas verdade é que aprenderam um com o outro e com muitos outros, só assim é possível.
Ambos fabricavam os discos na RTI que é de onde vêm alguns dos melhores discos que tenho, como por exemplo os recentes Chet Baker editados pela Craft Records, mas quando as grandes editoras descobriram que o vinil afinal estava vivo, Hobson teve de arranjar uma alternativa e acabou por comprar uma fábrica de vinil que transportou para a California. Mais tarde vendeu-a a Chad Kassem que a transformou na Quality Record Pressings, onde os discos são prensados à mão (um a um) e de onde saem alguns das melhores edições que é possível pôr a tocar. Outra diferença que se pode observar relativamente aos negócios nos EUA, é a honestidade e transparência — apesar de ser um processo razoavelmente complexo, os preços estão à vista para quem quiser ver quanto custa editar um disco de qualidade. Noutros lados, para coisas bem mais simples, só para um orçamento é preciso um requerimento em papel azul de 25 linhas e mesmo assim não há garantias.
A certa altura diz-se que ouvir música em vinil requer uma devoção e uma atenção que o digital dispensa e compara-se de forma que eu próprio já comparei: É como ver um filme e é assim que agora ouço música.
Esta conversa é de grande interesse para quem gosta de música em vinil e de histórias contadas por quem as viveu.

Discos Pelo Chão

Publicado em 19/03/2021

Nicolas Jaar, Cenizas, calhou-me fraca prensagem, mas gostei do disco, podia ter gostado mais não fosse o ruído permanente (no fim após lavar duas vezes os discos, acabei a devolvê-los).
Nils Frahm, Only Melodie, nem há palavras para descrever este disco de tão espectacular que é. Uma obra magistral que faz sair deste Mundo.
Memoirs of a Geisha é uma banda sonora original inacreditavelmente boa. John Williams, Yo-Yo Ma ou Itzhak Perlman, nem é preciso dizer muito mais. A gravação, a profundidade, o palco, é inacreditável, é um daqueles discos que nos puxa para a música e não nos deixa sair. Tudo isto deixado ficar mal por mais uma prensagem bastante fraca da Music On Vinyl, uma marca que definitivamente não gosto, tantos são os fracassos. Não tem qualquer consistência, a qualidade destes discos parece francamente aleatória e têm a mania de numerar tudo, para fazer de conta que temos um “objecto único”. Nunca vi o filme, mas fiquei com vontade de o ver.
De Dirk Maassen, Echoes, muito bom disco clássico contemporâneo, o tipo de piano que eu gosto, por vezes com violino de Esther Abrami. A edição da Sony Classics não podia ser melhor, da capa à fotografia, passando pelo design e os próprios discos, cor púrpura muito escura e não menos importante, com óptimo som.
Mais uma vez Jason Molina, Pyramid Electric Co., super-triste. Atrás está Eight Gates, que é já um disco póstumo pois Molina morreu em 2013 com apenas 39 anos, com severos problemas devido ao alcoolismo. Foi um artista prolífico, curiosamente com a mesma ética de trabalho que Nick Cave, ou seja, as canções não surgiam da inspiração quando calha, mas sim do trabalho regular e persistente.
Por fim, de Kruder & Dorfmeister, The K&D Sessions, foi como abrir uma caixa de chocolates ao percorrer os cinco 12″, tantas as surpresas. Mesmo muito bom e o som incrível, uma grande edição. Inclui downloads de “alta-resolução” que não ouvi (Actualização: Afinal a “alta resolução é no máximo ALAC e FLAC, ou seja qualidade CD na melhor das hipóteses, continuo a ter razão.), mas o vinil está o melhor que é possível.

Discos Pelo Chão

Publicado em 12/03/2021

Alguns dos últimos discos que comprei na Tubitek. Ainda não tive tempo para ouvir mais do que uma vez, pareceram-me todos muito bons.

Ólafur Arnalds e Nils Frahm Trance Frendz (e atrás está Stare, também deles), gostei mas esperava um bocadinho mais, normalmente é apenas sinal de que não ouvi no dia certo.

Cornelius é um músico japonês que anda por todo o lado, não tem género musical definido, é electrónica sem o ser realmente. Não tinha nada em vinil, apenas CD, Mellow Waves parece-me o melhor disco que tenho dele.

Jason Molina… que dizer? Let Me Go é o disco mais triste que ouvi nos últimos anos, muito bom e com boa edição também. Ainda não tive coragem de voltar a ouvir, não me pareceu disco que me faça sentir bem quando me sinto mal.

Distractions é o último dos Tinderstics, e de certeza que irá para o secção de “grande discos”.

Por fim Kraftwerk Tour de France (atrás está Autobhan) é uma edição brutalmente boa, definitiva mesmo. Não há nada a dizer, estas reedições deixam as anteriores que eu tenho — este apenas em CD — a léguas. São discos obrigatórios para quem gostar de música electrónica, em particular de tudo o que foi a futurologia Kraftwerk. Os cinco restantes chegarão da Alemanha porque prefiro as versões alemãs, estes dois são idênticos na edição alemã ou internacional.