Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

Artigos da categoria “Poesia

For Whom the Bell Tolls

Publicado em 11/02/2022

No man is an island,
Entire of itself.
Each is a piece of the continent,
A part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less.
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
Or of thine friend’s were.
Each man’s death diminishes me,
For I am involved in mankind.
Therefore, send not to know
For whom the bell tolls,
It tolls for thee.

—John Donne, Devotions Upon Emergent Occasions, 1624

Realidade

Publicado em 23/10/2021

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos…
Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isso —
Nesta localidade da cidade…

Há vinte anos!…
O que eu era então! Ora, era outro…
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada…

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)…
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos…
Não me lembro, não me posso lembrar.
O outro que aqui passava então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse…
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
Do que esse eu-mesmo que há vinte anos passava aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo.
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer…

Daquela janela do segundo-andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada…

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro.
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado.
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso…
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
Olhámos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol.
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isto realmente se desse…
Verdadeiramente se desse…
Sim, carnalmente se desse…

Sim, talvez…

—Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, 1944

If——

Publicado em 04/10/2021

If you can keep your head when all about you
    Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
    But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
    Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
    And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
    If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
    And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
    Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
    And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
    And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
    And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
    To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
    Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
    Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
    If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
    With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
    And—which is more—you’ll be a Man, my son!

—Rudyard Kipling, Brother Square-Toes, The Delineator, Julho de 1910

A Morning Offering

Publicado em 28/09/2021

I bless the night that nourished my heart
To set the ghosts of longing free
Into the flow and figure of dream
That went to harvest from the dark
Bread for the hunger no one sees.

All that is eternal in me
Welcomes the wonder of this day,
The field of brightness it creates
Offering time for each thing
To arise and illuminate.

I place on the altar of dawn:
The quiet loyalty of breath,
The tent of thought where I shelter,
Waves of desire I am shore to
And all beauty drawn to the eye.

May my mind come alive today
To the invisible geography
That invites me to new frontiers,
To break the dead shell of yesterdays,
To risk being disturbed and changed.

May I have the courage today
To live the life that I would love,
To postpone my dream no longer
But do at last what I came here for
And waste my heart on fear no more.

—John O’Donohue, To Bless the Space Between Us: A Book of Blessings, Doubleday, 2008

A Tradução da Poesia de Louise Glück

Publicado em 08/09/2021

Presque Isle

In every life, there’s a moment or two.
In every life, a room somewhere, by the sea or in the mountains.

On the table, a dish of apricots. Pits in a white ashtray.
(…)

—Louise Glück, A Íris Selvagem, Relógio de Água, 2020


Presque Isle

Em cada vida há momentos.
Em cada vida há um quarto algures, à beira mar ou nas montanhas.

Sobre a mesa, um prato com damascos. Alguns caroços no cinzeiro branco.
(…)

Tradução de Ana Luísa Amaral


Presque Isle

Em cada vida há um momento ou dois.
Em cada vida, um quarto algures, à beira mar ou nas montanhas.

Na mesa, um prato de damascos. Caroços num cinzeiro branco.
(…)

Tradução minha


A Ana Luísa Amaral é uma tradutora prestigiada, não entendo a tradução neste livro. Sendo a poesia um jogo de subtilezas, este cunho pessoal, onde até a pontuação é outra, altera a relação entre as palavras e o leitor. O reparo não é de crítica — pobre do meu inglês —, é de incompreensão.
Os exemplos são inúmeros, eventualmente em cada poema. Li um há pouco que fala do “arejo”, um fungo dos tomateiros, compreende-se que seja difícil atingir essa especificidade para quem não é da área — e no meu caso é por mera sorte. De qualquer forma, no que é de fácil ou mais imediata tradução, é incompreensível.


Vésperas

(…) on the other hand,
I planted the seeds, I watched the first shoots
like wings tearing the soil, and it was my heart
broken by the blight, the black spot so quickly
multiplying in the rows. (…)

—Louise Glück, A Íris Selvagem, Relógio de Água, 2020


Vésperas

(…) por outro lado,
fui eu quem plantou as sementes. Vi os primeiros rebentos
como asas rasgando o solo, partiu-se
o meu coração com as pragas, a pequena mancha negra a multiplicar-se
tão depressa pelos sulcos. (…)

Tradução de Ana Luísa Amaral


Vésperas

(…) por outro lado,
eu plantei as sementes, observei os primeiros rebentos
como asas rasgando o solo, e foi o meu coração
partido pelo arejo, aquelas manchas negras tão rapidamente
a multiplicar-se pelos canteiros. (…)

Tradução minha


Como tudo, tem vantagens e desvantagens, há passagens muito bem conseguidas, ou títulos. Retreating Light… Luz Em Fuga, até me parece mais bonito em português.

Rose Aymer

Publicado em 08/09/2021

Ah what avails the sceptred race,
Ah what the form divine!
What every virtue, every grace!
Rose Aylmer, all were thine.
Rose Aylmer, whom these wakeful eyes
May weep, but never see,
A night of memories and of sighs
I consecrate to thee.

—Walter Savage Landor