Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

Artigos etiquetados “elena ferrante

Não Era

Publicado em 20/04/2020

“(…) Porquê?”
“Porque erraste”
Não gostei da frase, soou como o eco de uma velha ofensa. Estava a atirar-me à cara que eu errara, apesar de ela ter tentado afastar-me do erro. Estava a dizer-me que eu quisera errar, e consequentemente ela enganara-se, eu não era inteligente, era uma mulher estúpida.

—Elena Ferrante, História da Menina Perdida

Semeia

Publicado em 12/04/2020

Disse que ela não era de facto minha amiga, que me detestava, que sim, era extraordinariamente inteligente, que também era muito fascinante, mas que a sua inteligência era mal usada — a inteligência maldosa que semeia discórdia e odeia a vida —, e o seu fascínio era do mais insuportável, o tipo de fascínio que escraviza e leva à ruína. Assim mesmo.

—Elena Ferrante, História de Quem Vai e de Quem Fica

Terminou

Publicado em 10/04/2020

Nessa altura descobri dentro de mim um emaranhado de fios, cujas pontas eram impossíveis de encontrar. Eram velhos e descorados, ou novos em folha, por vezes de cores vivas, outras vezes sem cor, fininhos, quase invisíveis. Aquele estado de bem estar terminou de repente (…)

—Elena Ferrante, História de Quem Vai e de Quem Fica

Chanfrada

Publicado em 08/04/2020

E poderia fazer muitas, mas muitas coisas mais. Mas é chanfrada da tola, julga que pode fazer sempre o que lhe dá na gana. Vai, volta, arranja, parte. Tu pensas que eu a despedi? Não, um dia, como se nada fosse, deixou de ir trabalhar. Assim, desapareceu simplesmente. E se voltas a deitar-lhe a mão, escapule-se outra vez, é uma enguia. O problema dela está nisto: apesar de ser muito inteligente, não é capaz de compreender aquilo que pode fazer e aquilo que não pode.

—Elena Ferrante, História de Quem Vai e de Quem Fica

Coisa Nenhuma

Publicado em 15/03/2020

Mas ela apercebera-se disso desde o instante em que eu lhe aparecera à frente, e agora, arriscando-se a ter atritos com os colegas de trabalho e a ser penalizada, estava a reagir, explicando-me de facto que eu não ganhara nada, que no Mundo não havia coisa nenhuma para ganhar, que a sua vida era tão cheia de aventuras variadas e insensatas como a minha, e que o tempo simplesmente passava sem fazer qualquer sentido, e que era bom vermo-nos só de vez em quando para ouvirmos o som louco do cérebro de uma repercutir-se dentro do som louco do cérebro da outra.

—Elena Ferrante, História do Novo Nome