Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

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Cinema em Maio

Publicado em 31/05/2021

Druk (2020) (31)

Mads Mikkelsen é um actor espectacular, com uma presença e carisma que não encontro noutro. É um filme espantoso. Realizado por Thomas Vinterberg.
☆ ☆ ☆ ☆ ☆

The Last Picture Show (1971) (32)

Custa a crer como este filme já tem 50 anos, ver o Jeff Bridges super-novo e a Cybill Shepherd super-linda. É um contínuo nó no estômago, entre as mudanças inevitáveis do terminar o secundário numa cidadezinha moribunda do Texas, o que vem de novo e a certeza de que o tempo não volta para trás e nada será como dantes — ao mesmo tempo que há a sensação de que o que é mau se perpetua. A sensação de que não se pode ter tudo e uma conquista equivale sempre a uma perda de pelo menos igual grandeza. Realizado por Peter Bogdanovich.
☆ ☆ ☆ ☆ ☆

Midnight Run (1988) (33)

Um dia depois de ter visto, faleceu Charles Grodin com 86 anos. Realizado por Martin Brest.
☆ ☆ ☆ ☆

Klute (1971) (34)

É o primeiro filme da chamada trilogia da paranoia de Alan J. Pakula. Realizado por Alan J. Pakula.
☆ ☆ ☆ ☆ ½

The Parallax View (1974) (35)

Segundo filme da trilogia da paranoia de Alan J. Pakula. O terceiro é “All the President Men”, que verei noutra época. Realizado por Alan J. Pakula.
☆ ☆ ☆ ½

Zoe (2018) (36)

Este filme tem um tom algo melancólico devido principalmente à interpretação de Léa Seydoux e à música (Cigarettes After Sex et al.), sendo mais uma tentativa de Drake Doremus ilustrar o relacionamento humano (ou, mais concretamente, a falta dele), nem que seja através de pessoas sintéticas. De uma forma ou de outra, anda tudo atrás do mesmo e todos falham miseravelmente. Nem com a nova droga do mercado que permite as sensações do “primeiro amor” — uma espécie de metáfora para a promiscuidade das apps actuais —, preenchem o vazio que se avoluma. Realizado por Drake Doremus.
☆ ☆ ☆ ½

First Cow (2019) (37)

Ainda há pouco tempo falei de Wendy and Lucy, a propósito de Nomadland e agora, vejo First Cow que também é de Kelly Reichardt — está tudo ligado.
Gostei imenso deste filme que começou passados quase dois séculos, com aquilo que terá sido o desfecho inevitável para Cookie e King-Lu. Seria um filme para cinco estrelas, mas embora entenda a subtileza de mostrar no que se tornou a América através de como tudo começou, a época em causa acaba por não me tocar. Mas sim John Magaro como Otis “Cookie” Figowitz, que escolha formidável para o papel. Realizado por Kelly Reichardt.
☆ ☆ ☆ ☆ ½

Mektoub, My Love: Canto Uno (2017) (38)

Conversa incessante, extremamente bem escrita e inacreditavelmente realista, apenas interrompida pela sequência do nascimento de duas ovelhas. Se calhar atribuí meia estrela a mais por uma espécie de nostalgia, mas gostei imenso na verdade, as três horas passaram com uma facilidade impressionante. Há quem veja e apresente La Vie d’Adèle como uma obra a favor de certas causas e será de uma perspectiva válida, outra também válida, é que já me parece há muito tempo que se trata de um espectáculo essencialmente para homens. Aqui, confirmei que Kechiche filma as mulheres de um ângulo, literalmente de vários ângulos, muito masculinos. Não tenho nada a dizer, para mim é bom. Em português Mektoub, Meu Amor: Canto Um. Fiquei com vontade de ver a segunda parte logo a seguir (aparentemente vai ser uma trilogia), Mektoub, My Love: Intermezzo. Realizado por Abdellatif Kechiche.
☆ ☆ ☆ ☆ ☆

Cinema em Abril

Publicado em 30/04/2021

‘Round Midnight (1986) (24)

Consta que é um dos melhores filmes sobre o mundo do jazz e confirma a velha máxima que diz que é mais fácil ensinar um músico a ser actor do que um actor a tocar. Dexter Gordon faz um papel incrível junto de um estranhamente novo François Cluzet. Ganhou o Oscar para a melhor banda sonora, composta por Herbie Hancock que também participa como actor. O título refere-se a um dos standards do jazz, composto por Thelonius Monk. Realizado por Bertrand Tavernier.
☆ ☆ ☆ ☆

The Man Who Knew Too Much (1934) (25)

Realizado por Alfred Hitchcock.
☆ ☆ ☆ ½

Nomadland (2020) (26)

Que filme extraordinariamente triste. Lembrei-me de Wendy and Lucy (2008) de Kelly Reichardt, talvez por isso e por apenas uma outra razão, mas crucial: Há pessoas que gastam toda a sua energia só para sobreviver e é tudo. Há também uma diferença importante, aqui existe trabalho (sasonal, meramente de sobrevivência, designadamente num armazém da Amazon durante a época natalícia) e aquilo que parece ser uma escolha de um modo de vida, apesar de precipitado por acontecimentos incontroláveis. Em Wendy and Lucy, a sensação é que não existe qualquer escolha, nem irá existir.
Eu vou classificar este filme na secção neorealismo americano, que não sei se é imaginária. Há a Frances McDormand, uma magnífica escolha para o principal papel que é espantoso, também David Strathairn que francamente só me lembro de The Expanse como o incrível Klaes Ashford, que aqui estranhamente cultiva praticamente o mesmo visual. Os restantes, parecem ser nómadas reais a interpretarem-se a si próprios. É um daqueles raros filmes em que cada plano, cada diálogo, tem o peso de 1.000 tristezas. A música não dá tréguas e agrega a angústia do início ao fim, com Ludovico Einaudi, Ólafur Arnalds e outros. Realizado por Chloé Zhao.
☆ ☆ ☆ ☆ ☆

Newness (2017) (27)

O espantoso mundo das aplicações de encontros sexuais, os swipes e os matchs! Os nossos protagonistas encontram-se uma noite, já depois de cada um ter tido o seu parceiro sexual, ele com uma magnífica sessão de vomitório, ela com uma sessão de sexo que conseguiu ser ainda ainda dois furos abaixo disso. São honestos e contam as aventuras um ao outro, melhor cartão de visita para primeiro encontro não podia haver — a honestidade. É anedótico. Ele convida-a para alguma diversão com “no strings attached”, por isso começaram a viver juntos praticamente nessa noite, ou dia, que já tinha amanhecido. Gostei de pormenores como a técnica de copy/paste de mensagens para várias ao mesmo tempo, ou ela vendo que duas bebidas já estão no balcão quando chega, bebe antes a dele — além da honestidade, estas relações começam sempre com uma grande dose de copos e de confiança no outro. Passou pouco até ela concluir que afinal não sabe nada sobre o namorado. Foi um choque. E não passou muito mais para voltarem à app e daí para o psicólogo porque o amor que os unia era grande. Etc. Etc. São tão sinceros um com o outro que quase, quase, quase, tinha pena deles, mas não tive — lembrei-me foi do mestre Philip Roth: “A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direcções. A sinceridade é pior que a falsidade e a inocência que é pior que a corrupção.” Anedótico não chega a descrever este mundo. Para o fim melhora, ela que deseja sempre coisas novas começa a relacionar-se com um indivíduo cheio de dinheiro que podia ser pai dela, porque não há mais newness que isso. Mas valeu a pena ver, só para assistir ao discurso de antologia com que o “pai” a brinda e lhe mostra a realidade — ao que ela responde de forma algo menos antológica, que ele não a conhece (mais um choque) e ela não é a pessoa que ele pensa que ela é (é um nunca acabar de choques).
Este filme passa de conversa para conversa, tentando reproduzir o dia a dia destas pessoas, mas ao contrário do filme anterior, cada diálogo e cada plano são um chorrilho de banalidades, lugares comuns e superficialidade insuportável. Fico com dúvidas se o objectivo não terá sido atingido, porque esta realidade é assim mesmo, completamente vazia. Portanto pode ser um bom filme, mas de Drake Doremus foi o que gostei menos até agora. Uma das músicas que acompanha este degredo é Short Line dos Howling, não há más coincidências. Por acaso tenho esse disco, os Howling são Frank Wiedemann e RY X. Realizado por Drake Doremus.
☆ ☆ ☆ ½

Endings, Beginnings (2019) (28)

Felizmente, este filme é muito melhor que a pobre pontuação no site IMDB deixa adivinhar. No entanto, a primeira coisa que pensei foi que os cigarros fizeram um regresso triunfal ao cinema, se é que alguma vez saíram. Já não me lembro de ver um filme onde os protagonistas não fumem incessantemente. E a segunda é que não me consegui abstrair totalmente de ter visto a actriz Shailene Woodley na série Big Little Lies; pior, o actor Jamie Dornan, praticamente com o mesmo aspecto de um dos maiores psicopatas de sempre da TV, que interpretou em The Fall — quase que esperava que a qualquer altura a matasse com requintes de malvadez. Mas lá passou. Também notei que não tenho banda sonora para sofrer, ou melhor, tenho, com aquelas músicas a que já não ligo patavina. Agora não ouço música para sofrer, já basta o resto, mas devia pensar nisso. Apesar deste início conturbado, os filmes do Drake Doremus pelo menos dão-me vontade de os comentar.
É mais um segmento da vida de uma mulher moderna, promíscua, mentirosa, cheia de esquemas… Acabou com o namorado que era um tipo impecável, um notório defeito. Nada melhor do que envolver-se com dois amigos, um dos quais um evidente bandalho, mas óptima companhia e ao que consta, muito bem dotado. A partir daí é o costume, mentiras, enganos, vai estando na cama de um e de outro, sem assumir realmente ser namorada de algum. Há uma atenuante que acaba por se perceber melhor no fim, mas as atenuantes andam sempre a par destes comportamentos. Parece que a mãe andou a fazer mais ou menos o mesmo, mas revela que “foi pelas filhas” (fiquei chocado, uma atenuante), porque estas pessoas têm sempre uma moral à medida e obviamente superior. Numa cena óptima pela ambiguidade, pergunta à filha se acredita nisso (que foi por elas) e não se vê a resposta que se imagina um assertivo “não”, embora possa ter sido um piedoso “sim”. Para estas pessoas, os endings são óptimos porque dão sempre origem a beginnings com aquela adrenalina, a excitação, a novidade e zero aprendizagem. Claro que também podem dar uma filha, da qual não se sabe bem quem é o pai. No filme, a partir daí, a esperança passa a transbordar do ecrã, vai ser tudo óptimo, a solução para aquele vazio que se agigantava e todos aqueles problemas. Na realidade, é mais como uma prima uma vez me disse exactamente sobre estes comportamentos e sobre a educação que se dá a um filho tendo esse pano de fundo e essa tal moral superior à medida de cada circunstância. Diz ela, que o mais certo é as coisas se perpetuarem.
Mas gostei do filme, bem filmado, boa música, pareceu-me muito realista também (muito mais que Newness). A cena que gostei mais foi quando ela encontra no meio de uma tralha uma mensagem escrita pelo antigo namorado junto com um bilhete dos The Mary Onettes… É uma coisa que eu faria e quase lamentei nunca ter tido essa oportunidade.
Por fim, não gostei mesmo nada da sequência das mensagens de texto que aparecem na imagem, com umas cores e um tipo de letra completamente WTF, nem se entende. Mas adorei quando os diálogos começavam a ficar desfasados das imagens, não me lembro de ter visto nada igual. Está mesmo muito bem feito e parece que nos faz entrar na cabeça dos personagens com uma intimidade e uma força que acho que nunca tinha sentido em nenhum filme. Realizado por Drake Doremus.
☆ ☆ ☆ ☆

Undine (2020) (29)

Não há uma boa sequência de filmes que não seja interrompida por um filme mesmo fraco. Realizado por Christian Petzold.

Equals (2015) (30)

Uma distopia em volta dos temas habituais do realizador, uma sociedade sem emoções e o amor entre duas pessoas. Realizado por Drake Doremus.
☆ ☆ ☆ ½