Hoje em dia já ninguém lá vai, aquilo está cheio de gente

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Atravessar

Publicado em 21/03/2022

— Não tens um certo receio? — perguntei-lhe eu.
— Receio de quê?
— Um desconhecido, nunca se sabe. Não quero ser desmancha prazeres, mas, tal como tu própria disseste, no mundo há muitos fulanos com quem nem atravessar a rua se pode.

—Javier Marías, Coração Tão Branco, Alfaguara, 2021 (1992)

Convencida

Publicado em 20/03/2022

Embora, no fundo, eu saiba à partida que a única coisa que esse fulano quer é foder-me uma noite e pronto, tal como já se encarregou de me avisar, quer eu queira que ele desapareça, quer não. Quero vê-lo e, ao mesmo tempo, não quero, quero conhecê-lo e que continue a ser um desconhecido, quero que me responda e que a sua resposta nunca chegue. No entanto, se não chegar, entrarei em desespero, ficarei deprimida, convencida de que me viu e não gostou de mim, e isso magoa-nos sempre. Nunca sei o que querer.

—Javier Marías, Coração Tão Branco, Alfaguara, 2021 (1992)

Um Projecto

Publicado em 18/03/2022

Todos estes indivíduos a desiludiram ou abandonaram, com frequência após uma única noite juntos. Em todos esses indivíduos, ela depositou esperanças, em nenhum deixou de ver um projecto, incluindo na primeira noite que tantas vezes prometia ser a última, e cumpria a sua parte. Cada vez lhe é mais difícil segurar quem quer que seja e cada vez se esforça com mais afinco (ainda não lhe chegou, digo eu, a hora da indiferença, nem tão-pouco a do cinismo).

—Javier Marías, Coração Tão Branco, Alfaguara, 2021 (1992)

As Únicas

Publicado em 14/03/2022

Haverão de sentir saudades destes meses em que faziam alianças contra os demais, contra qualquer pessoa, pequenas troças partilhadas, quero eu dizer, dentro de uns anos as únicas alianças que hão-de ter serão um contra o outro.

—Javier Marías, Coração Tão Branco, Alfaguara, 2021 (1992)

Para Não Falar

Publicado em 11/03/2022

Qualquer relação entre as pessoas é sempre uma quantidade de problemas, de disputas, para não falar das ofensas e humilhações. Toda a gente obriga a toda a gente, não tanto a fazer aquilo que não quer, mas, acima de tudo, aquilo que não sabe que quer, porque quase ninguém sabe o que não quer, e menos ainda o que quer, isto então, não há maneira de saber.

—Javier Marías, Coração Tão Branco, Alfaguara, 2021 (1992)