A Anthropic destruiu milhões de livros para treinar o Claude, num projecto interno chamado “Project Panama”, revelado num processo judicial de autores que a empresa acabou por resolver com um acordo de 1,5 mil milhões de dólares em Setembro de 2025. Os documentos mostraram que a liderança considerava os livros “essenciais” para o treino — um cofundador disse que ensinariam os modelos a “escrever bem” em vez de imitar o “discurso de baixa qualidade da internet”. Mas não fica por aqui, um livreiro denunciou que existe a possibilidade de muitos dos livros destruídos serem muito raros (Futurismm, NL Times) — e toda a destruição, segundo o juiz William Alsup, enquadra-se naquilo que se pode denominar uso legítimo.
Mas há aqui uma contradição insanável que culmina numa pergunta inevitável: O que querem para o futuro da humanidade estas empresas de inteligência artificial de recursos ilimitados? Destruir livros, de propósito ou acidentalmente, nunca foi sinónimo de civilização e os EUA há muito que demonstram que a civilização não irá passar por ali, aliás ainda recentemente deixaram destruir a Biblioteca de Bagdad (na invasão de 2003) e está a decorrer a destruição de inúmeras bibliotecas no Irão, no bombardeamento de alvos civis — que só parece indiscriminado. São crimes de guerra debatidos nos programas nocturnos da Fox como entretenimento de horário nobre.
Em 1984 — de George Orwell —, havia o Ministério da Verdade, onde Winston Smith trabalhava, reescrevendo documentos, jornais, revistas, livros e registos históricos para os alinhar com a versão do partido, porque quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado. Está a acontecer neste momento, textos atirados para os memory holes, pessoas e lugares apagados da história, como se nunca tivessem existido, unpersons.
É um processo rápido: a guerra do Irão não existe. Não passou pelo Congresso norte-americano e isso, em vez de ser a demonstração cabal de uma guerra ilegal, tornou-se a prova irrefutável de que a guerra não existe.
O livro provou o seu valor como unidade de conhecimento ao longo de séculos e milénios, a internet, os novos bárbaros julgam que é para sempre, mas não é. O conhecimento já perdido é gigantesco e nada garante que um cataclismo mantenha os servidores a funcionar. Perante o presente, as bibliotecas são cada vez mais necessárias e preciosas — e sim, a tecnologia pode ajudar não a destruí-las, mas a preservá-las.